EURÍDICE GRACIA
Nasceu no dia 3 de junho de 1900 em Bento Gonçalves. Filha de Antônio Gracia(sapateiro, natural da Itália) e Marina Bugalsky(natural da Polônia).
Aos cinco anos ingressou na escola, sendo sua primeira professora Dona Marfisa Esperança. Esta era de Porto Alegre.
Eurídice lembra que conforme iam se adiantando ganhavam outro livro. ”A Seleta era o último livro. Ao terminá-lo se estava formando”. Os professores tomavam a lição e se não soubesse ganhava castigo. Sabendo a
lição passava imediatamente para a seguinte. Os castigos usados eram: não ter recreio, ficar de joelhos, etc.
Todas as professoras eram obrigadas a fazer um curso de aperfeiçoamento. Lembra que neste curso foram seus professores: Angelo Roman Ros, Albertina Bender, Félix Faccenda e Genny Salvaterra. Lembra que Amália Geisel foi sua colega, mas depois esta foi morar em Porto Alegre.
Lecionou primeiramente na escola Pedro Salgado, depois no Barracão, mais tarde no São Roque e 3ª secção do Rio Das Antas e finalmente na Linha Armênio. Quem veio de lá para buscá-la foi Vitório Longhi e para lá foram a cavalo. Lá morava na casa da Anita Cusin.
Era paga pela: Intendência. Não havia férias de inverno. Lembra que o 2º livro de leitura iniciava assim: ”Mimi era um gatinho”.
O Registro de Nascimento de Eurídice Gracia foi feito por Júlio Lorenzoni, na época Oficial do Registro Civil do 1º Distrito de Bento Gonçalves.
CANDIDA SARTOR MERLIN
Nasceu em 25 de Outubro de 1900, filha de Antônio Sartor e Maria Toso Sartor, ambos imigrantes. Nasceu na Linha Jansen, hoje pertence a Farroupilha. Fez o primário na mesma localidade. Sua primeira professora foi Maria de Alfonso, de Porto Alegre.Após concluir o primário, “estudou particular” dois anos com o professor Félix Faccenda.
Ingressou no magistério em 1917, na Linha Jacinto nº 35, em Pinto Bandeira. Casou-se e veio morar em São Pedro, distrito de Bento Gonçalves Como não havia vaga de escola nessa localidade, ficou aguardando, “lecionou particular” para adultos à noite em troca de dias de serviço.
Em 1923, ficando vaga a escola dessa localidade, reiniciou suas atividades no magistério municipal. Lecionava a todas as classes, 1ª, 2ª, 3ª, 4ª, 5ª e sempre tinha na média de 70 alunos. Precisava agir energicamente com os alunos; ao contrário, não seria possível ensinar, dizia Dona Cândida. Usava vara quando necessário: “Sabe, a gente precisava fazer com que todos aprendessem, porque os pais assim os queriam. Caso um aluno não aprendesse, o pai vinha tomar explicações. Então, nessa ânia de querer que todos aprendessem, a gente apelava para os castigos. Mas não era porque a gente queria mal a eles”, disse-nos Professora Cândida.
Certa vez, ao receber a visita do Intendente Pinca, ele quis saber como ela consegui ensinar sessenta e seis alunos numa sala tão pequena e tantas turmas. Ela respondeu que passava o trabalho no quadro para a 1ª classe, depois para a segunda e enquanto estes faziam o trabalho ela ia tomando a leitura das outras classes. Depois, os mais adiantados iam ensinar os que não sabiam.
Dona Cândida sentia que as crianças da 1ª classe tinham dificuldade em aprender a ler-“Eles custavam entender. Era difícil ensiná-los a ler. Hoje, observo que as crianças, aqui na escola, aprendem com muito mais facilidade”.
A idade escolar era de 7 a 14 anos. Porém, poucos permaneciam ate 14anos, devido ao trabalho em casa.
Os maiores problemas enfrentados por ela eram as saídas antes dos horários, pois os alunos tinham que levar o almoço aos familiares na roça.Ainda, as faltas da época de plantio e colheita, além do elevado número de alunos numa pequena sala.Em certa época, seu filho de 15 anos a ajudava, pois sozinha não dava conta.Porém, mais tarde, com a troca de Intendente, não foi mais possível. Alegaram que ele era de menoridade.
A professora Cândida lembra que em 1917, quando chegou à Linha Jacinto para lecionar, encontrou uma escola caindo aos pedaços à espera de um professor. A escola tinha sido construída mas não havia professores para lecionar Ao chegar, Intendente apresentou-a e disse aos membros da comunidade:”Dêem-lhe alguma coisa, pois a professora ganha pouco”. E assim ela sempre ganhava alguns produtos colônias deles.
Fez cursos de aperfeiçoamento durante sete anos. Esses cursos iniciavam por volta de 25 de Novembro e iam ate 30 de Dezembro. Dona Cândida ia de São Pedro a Bento Gonçalves diariamente a cavalo.
Eram professores do curso: Félix Faccenda, Angelo Roma Ros, Genny Salvaterra e Dorotéia Muller.
Lembra-se do dia em que deu uma varada no cavalet, que mais tarde casou com a filha.
Em novembro de 1984, aos 84 anos, Dona Cândida era uma senhora agradável, de fácil comunicação, falando em português muito correto e que muito nos impressionou pela lucidez, disposição e precisão no relato dos fatos. Confessou-nos que gostava muito de ler, acompanhar os jornais e cuidar da horta.
ALCIDES MARCOS GRACIA
Nasceu em 1913, filho de Antônio Grazia e de Mariana Bugalski.
Lembra de seus primeiros professores: Normelinda Lisboa (2 anos), Dona Salvaterra (Irma de genny), Félix Faccenda no 4º ano. Com este professor estudou mais dois anos em “particular”. Estudou também com Hortensia Braga e Dorotéia Muller. Foi colega de Josefina Reali.
O professor Félix Faccenda ensinava com a vara na Mao. Mandava os alunos buscar a vara de vime da grossura de um dedo, no fundo do terreno. Havia os alunos que gostavam de fazer sacanagens e cortavam a vara com canivete, de maneira tal que ao bater em alguém a vara se desfazia em pedaços.
Alcides lembra do professor Félix com carinho, pois ele “era uma energia com bondade”.
Passava a tarefa no quadro e circulava no corredor (espaços entre as classes) com a vara na Mao. Certa vez, após ter passado pelos bancos, ouviu um gracejo; não teve duvidas, virou-se e deu uma varada. Alcides continua dizendo que o professor Félix era ótimo professor, pois ensinava a essência das coisas. Não era como agora, que os professores deixam muito a desejar. Isso ele mesmo constatou quando foi gerente dos Moinhos Esperança (Porto Alegre): ao admitir empregados saídos do 2º grau, eles quase nada sabiam principalmente em português.
JOSÉ TESSER
Em 1884, o professor Antônio Poletto(avô de José Tesser), que veio da Itália, ensinava o italiano. Não podendo mais ser ensinado italiano na escola, o professor deixou de ensinar. Em seu lugar veio o professor Angelo Chiamolera, primeiro professor de Língua Portuguesa. O professor Chiamolera fez curso de aperfeiçoamento na gestão do Intendente Antônio Joaquim Marques de Carvalho Júnior.
Os professores eram auxiliados pelos Intendentes. O status do professor era bem elevado; todos o tratavam com respeito, como autoridade e como “aquele que sabia”.
A escola era estadual. Funcionava em prédio próprio. Os moveis da escola eram brancos inteiros, como os das igrejas. No primeiro banco estavam às crianças do 1º livro, no segundo banco os do 2º livro e assim por diante. Havia quadro para escrever.
Na escola não desenvolviam atividades praticas. O que mais se estudava era português e cálculos. Fazia-se o recreio no meio da tarde. Os períodos letivos iam do 1º livro ate a seleta, que seria o 5º livro.
Organização administrativa da escola: não possuía diretor; quando havia alguma comemoração ou apresentação, era convidada uma pessoa de destaque na comunidade. O professor possuía um livro para registros de matriculas de alunos.
Material didático usado: livros, cadernos, lápis, pena de aço com tinteiro.
Estudava-se para adquirir conhecimentos. A comunidade ficava fora da escola; os pais não se preocupavam com a vida escolar dos filhos; confiavam plenamente no professor. A escola fazia comemorações cívicas e religiosas na própria comunidade.
Não havia idade mínima para ingressar na escola.
Os exames eram feitos na própria escola, por uma equipe da Prefeitura chefiada pelo Inspetor de Ensino. Os livros eram recebidos através da Prefeitura, na forma de empréstimo: a gente usava e depois passava para os que vinham após.
O professor era muito severo, usava castigos. As crianças muitas vezes permaneciam ao lado da mesa do professor ajoelhados por longo tempo. Ele usava também uma vara muito resistente e batia nas mãos e nas costas; era só desobedecer que era castigado; o mesmo ocorria se não estudasse o suficiente.
A Prefeitura tinha o Inspetor que periodicamente visitava a escola; antecipadamente, era marcado o dia, os alunos eram comunicados e deveriam estar bem arrumados para recebê-lo; esperavam-no com a bandeira brasileira, e ele chagava a cavalo.
O prédio da escola foi demolido. O Sr. Tesser esta muito sentido com isso; diz:”era um monumento histórico” era do Estado.
PAULA RIGATO ZORZI
A escola era de Madeira, feita para escola mesmo. Tinha uma só sala de aula; os bancos eram grandes, cabiam 4 crianças; havia uma mesa e um quadro-negro. As turmas eram de 40 alunos. Os alunos faziam grandes distâncias a pé. Antes de irem para a escola, tratavam as vacas e só depois iam para escola. Havia uma turma de manhã e outra de tarde. Eles iniciavam aos 7 anos. As famílias mandavam os filhos à escola; só não existia fiscalização como tem hoje. Os alunos eram castigados: a professora colocava o aluno que não fizesse os deveres ajoelhados em cima de pedrinhas. Usava-se pedra-lousa para escrever; mais tarde, o caderno xadrez.
Só que para economizar chegavam em casa e apagavam tudo. Estudavam o manuscrito e a Seleta (5º livro). Um aluno que chegasse até o 5º livro podia ser professor.
O meu professor foi o Roa. A gente tinha muito respeito por ele. Os professores só estudavam até o 5º livro. Tinham que prestar exames para poder entrar. Eram pagos pela prefeitura.
JOSÉ LORENZINI
Nasceu em 1896 na Linha Leopoldina.
A primeira escola era na igreja, Capela das Almas. Mais tarde, por volta de 1943, foi construída uma escola de madeira, com uma só sala. Na escola escrevia-se na lousa, havia bancos compridos, como os das igrejas, e tinha o quadro-negro. Os alunos estudavam matemática, aritmética, gramática e tabuada. O professor era muito respeitado. As irmãs também, só que os pais não queriam mais pagar e tiraram os filhos da escola. Depois veio a escola municipal.
JOSÉ CAVALERRI E PAULO TURRI
Residência: Monte Belo.
Por volta dos anos 1875 e 1876 chegavam à então Linha Zamith as primeiras famílias que deram origem ao atual município de monte Belo do Sul. Dentro do território, na época distrito, vários núcleos se formaram e por um período de tempo obtiveram um desempenho paralelo com a sede, Santa Bárbara, Armênio Baixa, 100 da Leopoldina e Santa Lucia. Cada uma dessas comunidades (núcleos) possuía uma estrutura bem montada de sobrevivência. Na entrevista, José Cavalleri – que exerceu diversas funções públicas, inclusive a de professor – disse que o primeiro professor na Linha Armênio foi Achiles Marcom, italiano, que deu aulas particulares em sua própria casa. Paulo Turri disse ter sido aluno do professor Marcon nos anos de 1909 a 1910. Nesta época ele dava aula na igreja local, recebendo pagamento dos próprios alunos. Após 1910, foi construída uma escola pela comunidade, onde este professor continuou lecionando até 1912. Segundo o Sr. Paulo, o professor Achiles era muito severo, exigindo a máxima atenção de seus alunos, castigando-os quando necessário. Ensinava-lhes a ler e escrever em italiano e a fazer contas. Em 1913 o professor Marcon foi substituído pela professora municipal Angelina Tagliari Consoli. Dava aula em italiano. Esta foi substituída por Euridice Grazia por volta de 1915. Euridice ficou pouco tempo no localidade; para substituí-la veio a professora Ida Mench, que dava aula só em português. Era considerada ótima professora e de muita bondade; todos gostavam muito dela. Ficou diversos anos, sendo substituída por Alcides Sadi Fingher. Em 1932 veio para a Linha Armênio o professor José Cavalleri. Era um professor muito esclarecido, lecionava português, matemática, estudos sociais, ciências, educação física (dava muita ginástica), moral e civismo. Passava problemas, acompanhava e corrigia tudo individualmente. O aluno era atendido conforme seu adiantamento. Após quatro anos mudou-se para a sede do distrito para assumir o cargo de subprefeito.
O professor José Cavalleri estudou na Escola Sagrada Família, em Monte Belo do Sul. Contou que o colégio era particular e muito difícil de pagar as mensalidades. Sempre leu Muito. O ensino era em italiano e os exames eram feitos na presença do vice-consul italiano, Gino Batochio. Para se preparar melhor como professor, estudou na sede do município com o professor Félix Faccenda. Fez concurso e foi nomeado professor municipal. Foi substituído pela professora Luiza Ferlin, a qual lecionava em mais outra escola, na localidade da Linha Argemiro Alta e em 1939 foi substituída por sua ex-aluna Olga Longhi que permaneceu na escola denominada na época de 23ª Escola Municipal, mais tarde Escola Municipal Joaquim Murtinho.
VITOR INÁCIO KOZLOWSKI
Neto do primeiro professor municipal da Linha José Júlio, Alexandre Kozlowski. Os imigrantes europeus sentiram a necessidade de continuação de sua cultura e, por iniciativa particular, escolheram um membro de sua comunidade que soubesse ler e escrever para ensinar aos que não sabiam. O primeiro professor foi Alexandre Kozlowski; depois, Stefan Rubinski e outros. Por volta de 1927, era professor José Miszeswski. Recebiam um pequeno salário e o respeito da comunidade. Inicialmente as aulas eram dadas na própria casa do professor Alexandre. Em 1912, a assembléia da comunidade resolveu construir uma escola em sociedade com a igreja. O pagamento do professor também era feito pelo caixa da capela.
Quando um pai possuía mais de três filhos na escola, pagava por dois. O terceiro, a capela subsidiava. Se a escola tivesse menos de vinte alunos, a capela pagava a diferença ao professor; quando a escola tinha mais vinte, o excedente das contribuições dos colonos pertencia à capela, por que a escola era da capela. Foram alunos do professor Alexandre: Monsenhor João Peres, que trabalhou na Cúria Metropolitana de Porto Alegre; o filho do 1º Secretário de Educação, espécie de auxiliar do professor, Iguacy Reszka, mais tarde Cônego Estevão Reszka, mais tarde, Vigário em Mariana Pimentel, município de Guaíba. As aulas eram expositivas. Durante a exposição, silêncio completo. Os castigos eram ajoelhar-se lá na frente e ficar por um longo tempo olhando para o professor. Inicialmente ensinavam em polonês. Usava-se giz, quadro-negro e livros enviados pelo Governo da Polônia.
Fonte: Entrevista com Professores.
Entrevistas extraídas do Livro: Memórias: Bento Gonçalves – RS
Autora: Assunta De Paris
Fonte: História da Educação no Município de Bento Gonçalves - RS.
muito bom! gostei de ver a hitoria do meu falecido pai.
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