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sábado, 2 de julho de 2011

Os Mestres Antes de 1900

OS MESTRES


JÚLIO LORENZONI

Nasceu em Vila Raspa, comuna de Mason Vêneto, distrito de Maróstica,  Província de Vicenza, Itália, a 23 de março de 1863, e imigrou para o Brasil  em companhia de seus pais e irmãos em 1878, depois de ter freqüentado na Itália a escola primária e os primeiros quatro anos ginasiais.
A família estabeleceu-se em Silveira Martins, trabalhando na Ferrovia Taquari-Santa Maria. Em 1884, já casado com Josefina Righesso, mudou-se para a colônia Dona Isabel. Do seu matrimônio nasceram doze filhos.
Foi professor de italiano na escola elementar da Sociedade Rainha Margarida de 1884 até 1889. Daí passou a ser agente do correio, sendo mais tarde Escrivão Cível e de Crime, Oficial do Registro Civil e Escrivão da provedoria e Casamentos e do Cartório de Órfãos. Foi também Conselheiro Municipal, Presidente de Sociedade Italiana rainha Margarida, Agente Consular do Reino da Itália e, a partir de 1926, Coletor Estadual. Fundou os jornais “Bento Gonçalves” (1910) e “O Estado” (1915).
Faleceu, em Bento Gonçalves a 22 de maio de 1934, deixando uma seleta biblioteca jurídica e literária, preferencialmente a clássica, tanto na prosa como na poesia.

 
 AGOSTINHO BRUM
Nasceu na Província de Údine, Itália, em 13 de junho de 1844, e faleceu em 19 de julho de 1913, 69 de idade. Casou-se na Itália. De seu casamento nasceram duas filhas. Enviuvou. Casou-se novamente e veio para o Brasil, em 1879, juntamente com a esposa Marina Roman e as duas filhas de primeiro casamento. Uma delas casou-se com o Sr. Mombelli, de Tapera e, ao adoecer, pediu ao marido que casasse com sua irmã. Do segundo casamento nasceram sete  filhos: Judite, Romano, Adolfo, Emma, Dorina, Anita e Márcio.

        
Quando chegou ao Brasil, estabeleceu-se na linha Jansen mas como não sabia trabalhar a terra (na Itália era professor) comprou dois dicionários e passou a estudar neles a língua portuguesa.
Passou a residir com a família em Santa Bárbara e começou  a ensinar a ler e escrever na própria casa, por não existir outro prédio á disposição para essa finalidade. Era um casarão de madeira que servia de depósito de mercadoria. Procurou dar alguns ensinamentos sobre as quatros operações e alfabetização.
No início da década de 80 (1880) fez concurso em Porto Alegre, juntamente com os colegas Félix Montanari, de Santa Tereza, e Poletto, de Farias Lemos.
Era líder em sua comunidade. Ainda existe a casa que ele próprio construiu.
Foi secretário da Sociedade Rainha Margarida de Monte Belo. Era professor e comerciante. Seu neto Álio Agostinho Brun afirma que o livro de atas Sociedade Rainha Margarida de Monte belo foi entregue, com os estatutos, ao historiador de Bento Gonçalves Pedro Koff (falecido).
Em homenagem a esse benemérito educador que exerceu o magistério durante muitos anos e merece o respeito de todos os bento-gonçalvenses, a Escola do Bairro Imigrante, da cidade de Bento Gonçalves, foi denominada de Escola Municipal Agostino Brun.


    LUÍS CASANOVA

Por volta de 1889 veio para a Linha Palmeiro, São Miguel, em Bento Gonçalves, um professor da Itália, chamado Luís Casanova, com o objetivo de ter um futuro mais promissor. Como todo o imigrante, teve seus anseios barrados pela dificuldade e pela má sorte.
  Durante a permanência do mesmo, segundo depoimentos do então vizinho Domingos Hilários De Paris, alfabetizou algumas pessoas, entre elas seu pai Victório de Paris. Ensinava o italiano e principalmente a matemática. Em seis meses o aluno ficava apto para enfrentar as dificuldades da vida.
Dizia o entrevistado que seu pai foi alfabetizado e que tendo sido seu aluno por seis meses particulares em casa.
Durante sua permanência em São Miguel, organizou o estatuto da comunidade.
Era muito católico. Um educador autêntico. Voltou após para a Europa, pois no Brasil não encontrara grande prosperidade.

 ANGELO ROMAN ROSS

Nasceu em 17 de agosto de 1873 em Paffabro, Itália. Faleceu no dia 21 de fevereiro de 1939 em Bento Gonçalves.
Casou-se com vitória Bernardon no dia 30 de janeiro de 1894, na igreja São João, na Linha Farias Lemos, Bento Gonçalves. Do casal nasceram 12 filhos. Aos 12 anos de idade, perdeu o pai, assumindo a direção do lar por ser o primogênito entre os cinco irmãos (os dois últimos nascidos no Brasi).
Teve instrução do professor em italiano durante seis meses. Seus progenitores eram agricultores. Inteligente por educar-se e aprender, dedicou-se, quando menino, ao trabalho de medição de terras, tendo sido auxiliar do Dr. José Montanari Leitão, Chefe da Comissão de Terras do Estado, chegando por seu esforço a ocupar o cargo de Topógrafo da referida comissão. Posteriormente, fez concurso para o magistério público estadual, tendo alcançado aprovação com destaque. Nomeado professor, durante anos exerceu o cargo na cidade de Guaporé. Convidado pelo Diretor geral da Instrução Pública do Estado assumiu o Colégio Elementar em Camaquã. Mais tarde, um ano aproximadamente, solicitou remoção para o Grupo Escolar General Bento Gonçalves, de Bento Gonçalves, onde trabalhou por mais de 20 anos.
Aposentou-se com aproximadamente 35 anos de magistério. Na certidão de serviço consta apenas a data da nomeação, sem nenhuma falta ou licença.
Como reconhecimento pelo seu trabalho, a Escola Municipal de Santa Barbara, distrito de Monte Belo do Sul, recebeu a denominação de Escola Municipal Roman Ros.

FÉLIX FACCENDA

Filho de Antônio e Domênica Faccenda, nasceu na Suíça e foi registrado austríaco. Nasceu , em Cantão de São Galo, aos 18 de fevereiro de 1877.
Veio ao Brasil com três anos e seus pais foram morar em Monte Belo, 2º distrito de Bento Gonçalves. Seu para era engenheiro. Logo que chegou, pôs-se a trabalhar, derrubando mato. “Ele entendia bem de engenharia mas não de roça”, disse Félix Faccenda ao ser entrevistado por Mário Gardelin “e ao fazer o primeiro roçado deixou de pé um tronco de cedro. Depois de queimar a roça e plantado o milho, resolveu por abaixo o tronco para fazer tabuinhas. Foi infeliz, o tronco caiu rápido, em direção contrária a que todos pensavam e esmagou meu pai que morreu logo após.”Algum tempo depois, perdeu também a mãe. Sua educação foi cuidada pelo padre Finotti que o mandou para o seminário em São Leopoldo e depois em Porto Alegre. Como o custo de seus estudos era muito alto, resolveu deixar o seminário. Já havia feito sermão, como padre, em Nova Trento, atual Flores da Cunha.
Foi Professor de Latim na Escola Normal de Porto Alegre, sendo colega do Padre João Becker, que mais tarde foi Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre.
Fez exame para professor público em Montenegro. “Havia muitas moças e de rapazes só era eu.”
Casou-se em 1899, com Tereza Capelli. Tiveram cinco filhos: Antônio, Natalino, Aquilino, Francisco e Semiranis.
Em 28 de março de 1905, pelo Presidente do Estado do Rio Grande do Sul, Antônio Augusto Borges de Medeiros, foi nomeado professor interino para efetivamente reger a 8ª escola do sexo masculino, da Vila Bento Gonçalves, com os vencimentos marcados em lei, visto ter sido aprovado em concurso.
Em fevereiro de 1910, pelo decreto nr 1.479, de 16 de maio de 1909, o professor de 1ª entrância, de Bento Gonçalves, Félix Faccenda, é designado para a regência de classe de sexo masculino no Colégio Elementar, hoje Escola Estadual Bento Gonçalves da Silva.
Em outubro de 1911, o professor passou a receber o vencimento anual de dois contos de réis. Marcado pelo decreto nr 1.698 de 31 de outubro, da Secretaria do Estado dos Negócios do Interior e Exterior, em Porto Alegre.
É promovido por antiguidade à categoria de 2ª entrância, pelo então Intendente Federal no Estado do Rio Grande do Sul, José Antônio Flores da Cunha. Em Maio de 1935, aposentou-se.
O professor Félix Faccenda era profissional consciente, educador exemplar e  ótimo professor – foi o que nossos entrevistados, seus alunos, declararam. Apesar de enérgico  era de uma bondade comovente.
Era muito religioso, conhecia profundamente a religião. Embora acamado, ao seu lado estavam sempre livros. Permaneceu lúcido até os últimos instantes de sua vida. Suas últimas palavras foram: “Que pena ter que morrer; tenho ainda tanto a aprender”.


ALFREDO AVELINE

Filho de Henrique Davies Aveline (inglês, vice-cônsul na cidade de Rio Grande, mais tarde professor e comerciante) e Marcolina Barboza Aveline (brasileira). Nasceu em 23 de julho de 1874 na cidade de rio grande/RS. Morreu em 13 de maio 1947 na cidade de Porto Alegre.
Ainda estudante perdeu o pai, o que o obrigou a empregar-se para completar os estudos por conta própria, de vez que as condições da família o exigiam. Sua família era numerosa, pois eram 15 irmãos.
Diplomado pela Escola Normal, em Porto Alegre, única na época que ministrava ensino médio, prestou concurso para a Viação Férrea, obtendo ótimo lugar e conseqüentemente a nomeação.
Em 1898 casou-se com Jovelina Lima Aveline, também diplomada pela Escola Normal e que seria a “companheira dedicada e mãe exemplar”, conforme suas declarações em documentos de despedida, legado a família.
Quando o governo arrendou a Estrada de Ferro Belgas, solicitou sua demissão e prestou concurso no magistério público municipal, onde ingressou exercendo vários cargos de responsabilidade.
Iniciou sua carreira em Bento Gonçalves. Após, transferiu-se para curta permanência em Viamão, de onde partiu para Rio Pardo, onde fundou o Colégio Elementar Ernesto Alves dirigindo-o durante 9 anos.
Pouco tempo após, instalou-se em Bento Gonçalves. Foi nomeado, e também a sua esposa, para a Escola Distrital de Cruz Alta. Mas devido aos pedidos dos amigos não aceitou e permaneceu na cidade por mais sete anos.
Designado para exercer a Inspetoria Escolar em Viamão, ai permaneceu até 1910, quando novamente foi designado para Rio Pardo. Naquela cidade, também sua atuação elevada a íntegra o impôs no conceito da população.
Após 9 anos, para proporcionar aos filhos recursos intelectuais e culturais, aceitou designação para Inspetor Escolar, cargo que desempenhou com brilho e dedicação.
Várias Escolas Normais (hoje Magistério, 2º Grau) foram por ele fundadas e organizadas: a de Caxias do Sul, da qual foi o primeiro Diretor; a Osvaldo Aranha, de Alegrete; as de Itaqui, Cachoeira e inúmeras escolas particulares. Aposentou-se em 1936.
Em reconhecimento ao seu trabalho em prol da educação, foi homenageado com a denominação de uma escola municipal. É a Escola Municipal de 1º e 2º Graus Alfredo Aveline, no Borgo, em Bento Gonçalves.
 

EMMA SARTOR  DAL MAS 

 Iniciou sua carreira no magistério em 1923 com 17 anos de idade. Lecionava na Linha Jacinto, em Pinto Bandeira, no turno da manhã, e na Linha Jansen 28 à tarde; este trajeto entre duas escolas era de 8 Km percorridos pela Profª Emma a cavalo.
A Escola da Linha Jacinto era chamada 17ª aula, depois passou a chamar-se Escola Clara  Camarão.
Para ser professora ela prestou um exame e nas férias fazia cursos de especialização e para a promoção. Quem não pudesse fazer os cursos ficaria lecionando mas seu salário não aumentaria.
O professor orientador de dona Emma era o prof. Félix Faccenda, tanto no curso como particular.
Alguns alunos de Dona Emma: Generino Rinaldi, Evaristo Valério Rinaldi, Amadeu e Emília Gemeli, Ângelo Nichetti, Marino Nichetti, Narciso e Maria Provensi.
Falavam e escreviam em português, mas tudo tinha que ser traduzido antes de ser escrito.
O material usado era a lousa; cadernos e cartilhas não. Só recebia a “Seleta” aquele que chegasse ao 5º livro.


     JOÃO ANTÔNIO FÁVERO

Nasceu no dia 11 de junho de 1902, no lote nº 12 da Linha 1ª Secção de Santa Bárbara, 4º Distrito de Santa Teresa. Faleceu aos 21 de maio de 1966, na mesma localidade. Desde cedo teve que ajudar na lavoura e na criação de gado, mas também se interessou em aprender a ler e escrever. Aprendeu com seus avós paternos, os quais possuíam livros traduzidos da Itália, e mais tarde com o professor Alberto Tramontina. Estudou no Colégio Santo Antônio, em Garibaldi, dirigido por Irmãos Maristas, onde cursou o Curso Elementar. Na comunidade era muito respeitado. Muitas vezes era chamado para atender casos especiais. Era o conselheiro em todas as ocasiões. Outras vezes era chamado para medir terras, apaziguar ânimos entre famílias e nas transações comerciais. Gostava muito de ler e estar a par das notícias. Comprava jornais e retirava livros da Biblioteca Pública Municipal. Passava horas noturnas lendo livros de cultura geral.
Em 1946, com 44 anos, João Antônio fazia parte da Cooperativa de Laticínios Santa Bárbara, distrito de Caturetã, atual Monte belo do Sul, hoje Município, sob a matrícula nº 25. De associado passou a ser presidente.
Foi sócio da Cooperativa Vinícola Garibaldi Ltda. Em 1950 e nos anos posteriores, foi pessoa de confiança no Posto de Recebimento de Uva. Associou-se também à Cooperativa Santa Teresa, que mantinha um moinho.
Tinha atividades intensas. Redigia atas. Instruía os agricultores para se posicionarem e reivindicarem seus direitos. 
Em 1948, o Secretário da Educação e Cultura o contratou para o serviço de Ensino Primário, para a administração do ensino no Curso Supletivo Noturno da Escola Municipal Rodrigues Alves.
Em 12 de março de 1952, foi nomeado pelo prefeito municipal da época, Arthur Ziegler, para o cargo de subprefeito do 4º distrito, Santa Tereza.
Todos o admiravam e o procuravam. Em sua vida sempre procurou favorecer os mais humildes.
Morreu na simplicidade como sempre viveu. Frases muito repetidas por ele:
“O luxo não traz felicidade; é a vaidade das vaidades”.
“O homem deve se fortalecer no seu interior”.
“Tudo o que recebemos é um empréstimo; só usufruímos, mais nada é de ninguém”.
“Antes de falar devemos pensar três vezes”.
“A língua pode destruir uma grande amizade se não for controlada pelo pensamento”.
“Ouvir mais e falar menos”.
“Construir ao invés de destruir”.
“Trabalhar, pois o trabalho nos enobrece”.
“A preguiça é a mãe de todos os vícios”.
Aos menos esclarecidos dava um grande amor e se errassem ele dizia: “Devemos perdoá-los”.
Sem dúvida, ele soube viver a vida, doando-se a seus semelhantes e encontrando nisso a sua maior realização.
Nos dias de hoje, há uma escola municipal com seu nome, inaugurada em 1968, na Administração do Prefeito Milton Rosa, na Linha Santa Bárbara.


FONTE: MEMÓRIAS DE BENTO GONÇALVES - ASSUNTA DE PARIS

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